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Alimentar o monstro

O passo de saída de Eduardo Cabrita do Governo é o último acto de um daqueles puzzles tardios que se começam a construir com a certeza do lugar onde se coloca a última peça. Sendo óbvio o desenlace, todo o tempo em que foi evidente a insustentabilidade do peso da manutenção de Cabrita só foi útil para provar que a teimosia não é sentimento que se abandone ao primeiro engulho, exerce-se até às últimas consequências. Um exemplo, em salvo-conduto, para todos os ministros inábeis ou incompetentes.

Após um empilhador de polémicas chamado Cabrita, a fasquia está agora muito alta: para um ministro abandonar um Governo terá de acumular muitos, inquestionáveis passos em falso. Antes do acidente na A1, as golas antifumo, o SIRESP, os helicópteros Kamov, a polémica com bombeiros na reforma da Protecção Civil, o SEF e a morte de Ihor Homenyuk, os migrantes de Odemira ou até os festejos do campeão Sporting, casos onde os diferentes graus de responsabilidade objectiva tiveram sempre a insensibilidade política e pessoal de Cabrita como denominador comum. A pasta da demissão cai no colo de uma ministra que há muito não quer ser ministra da sua própria pasta. Há muito tempo que não víamos um executivo com tanta certeza política sobre as mil e uma formas de ignorar vontade própria, incompetência e impopularidade.

Obviamente, um caso de soberba de que parte do PS já se sente refém. António Costa, homem de pontes e de comprovada habilidade política, esqueceu-se de parte do seu principal "métier". Essa inusitada arrogância, disfarçada com bonomia, foi razão de alguns dos resultados decepcionantes nas autárquicas. Ao recusar negociar, aparentando ser detentor de uma maioria absoluta que nunca teve, mantendo ministros impopulares contra tudo e contra todos como se de chapéus de chuva ou de pára-raios se tratasse, Costa familiarizou-se ao espelho com a ideia de que o eleitorado lhe devia algo de perene. Que seria imbatível. Que nenhuma eleição próxima o poderia derrotar. Pelo contrário, uma eleição em proximidade só poderia redundar no reforço do seu poder, decorrência do voto agradecido do povo que não lhe faltaria e de uma oposição em frangalhos.

Agora que Rui Rio ganhou o PSD, responde pelo seu destino e faz às listas o que bem entende, parece cada vez mais evidente que o projecto de poder de Costa não contemplou a hipótese de que seria ele mesmo a promover a recomposição do maior partido da oposição e a reafirmação do seu líder. Rui Rio ganhou o partido porque, a partir de determinado momento, clarificou-se como o melhor líder do PSD para derrotar António Costa em eleições. Eis a oposição, por oposição. António Costa não criou o monstro mas, alimentando-lhe as fragilidades e atirando-lhe o "timing" para as mãos, tornou-o apetecível. Para confirmação da tese madrasta da soberba e em nome da suprema ironia, o inefável Cabrita demite-se em pose pré-eleitoral, com um Governo já em gestão demissionária. Alimentado até às últimas consequências.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 10 de dezembro de 2021