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Três alertas às boas almas do Ensino Superior público em tempos de desconfinamento

As chamadas boas almas proliferam nos tempos de crise. São pródigas em ação caritativa e em atenção filantrópica, “otimistas irritantes” quanto a formas humanitárias de resolução desta, como de todas as crises. O círculo irrestrito destas boas almas estende-se a largos setores da sociedade, inclusive ao Ensino Superior público. Mesmo que em salutar distanciamento social, é justo que reconheçamos de perto algumas das características destas almas boas, no rumo da sua atuação imaculada.

Para as boas almas, os tempos de emergência são tempos de suspensão de convicções em nome de um qualquer critério pragmático, de uma qualquer antecipação de um “fazer” prioritário. Uma boa alma age primeiro, pensa depois e, no caminho, frisa com entusiasmo as virtudes reveladas pela crise. No caso do ensino universitário e politécnico, tais virtudes traduzem-se em docentes das mais variadas áreas do saber desdobrados em aulas síncronas e assíncronas, em avaliações não presenciais garantidas por plataformas informáticas. Gabam-se e validam-se recursos tecnológicos destinados a abranger, agrupar e absorver um número indeterminado de estudantes num pacote uniformizado de atividades ditas “formativas”. E brindam as boas almas ao solavanco evolutivo como efeito colateral da crise pandémica, que fez a velha academia acordar do pesadelo de lápis e papel onde repousava há séculos. São mesmo assim, as boas almas – convictas portadoras da mensagem do progresso!

É inegável que a situação de crise é um teste de esforço às capacidades de resposta do Estado e seus agentes, e a pressa atuante das boas almas não obsta ao discernimento da sua avaliação generosa. Por isso qualquer boa alma pasma e rejubila com o modo despachado e voluntarioso com que docentes precários, titulares de carreiras estagnadas e investigadoras sem vínculo enfrentam os desígnios do tempo com muita responsabilidade e pouco salário. Talvez uma ou outra destas almas generosas distinga, por entre relatórios de demonstração de boas práticas e de dever cumprido, o prolongamento de normas há muito pontuadas pela aridez da demonstração burocrática, sobreposta como nunca ao trabalho pedagógico e científico que define o Ensino Superior.

Mas há mais fatores a colocar ao cuidado das boas almas, tendo em conta o terreno concreto de onde partimos e o cenário no qual admitimos trabalhar no futuro. Talvez seja hora, portanto, de almas menos virtuosas lançarem alguns alertas ao entusiasmo benigno das almas boas.

Um primeiro alerta surge quando vemos o histórico de crises recentes ou menos recentes, que acabam a possibilitar os cenários mais impensáveis e as piores conjunturas. Quando reconhecemos a precarização do trabalho no Ensino Superior, quando deparamos com as faltas de condições logísticas e materiais em Escolas e em Faculdades onde se tornaram medidas de poupança de recursos junções de turmas ou o aumento de proporção de alunos/as por professor, o que poderá representar o entusiasmo generalizado em relação aos sucessos do ensino à distância? E como se refletirá esse entusiasmo na preparação do próximo ano letivo, ainda sob ameaça do vírus? E nos anos subsequentes, com ou sem ameaça pandémica?

Um segundo alerta desenha-se na já reconhecida desigualdade entre estudantes e famílias quanto a recursos informáticos e tecnológicos, a que acrescem as questões de sociabilidade, de formação coletiva e de solidariedade que devem rondar o percurso de qualquer estudante, de qualquer profissional de qualquer formação. Cabe ao ensino superior público uma formação na democracia e para a democracia, por mais que esta orientação implícita se encontre hoje tão ensombrada pelos apelos ao empreendedorismo e às lógicas empresariais. Quais os efeitos da interiorização apressada de lógicas de formação tão perigosamente voltadas para um “novo normal”, em que a figura de docente, de discente e de turma se secundarizam no individualismo e na tecnocracia?

Daqui um terceiro alerta às boas almas, orientado para a pluralidade e diversidade científica e pedagógica como matrizes de um Ensino Superior democrático e crítico. Esta diversidade interna, que é necessário garantir em nome do ensino e da investigação nos contextos universitário e politécnico, é um dos desafios de todos os tempos para a política do setor. Ela está em causa no financiamento das instituições, na distribuição desse financiamento no interior das instituições e no modo como essas instituições formam decisivamente o futuro e a democracia do país. Nem todas as almas se moldam aos critérios de uma empresa e nem todas as almas almejam ser start-ups. Por melhor alma que seja, nenhuma alma é igual à outra. Se o fosse era um inferno, lugar de mau desígnio para qualquer alma que se preze. Como encarar uma refundação da academia assente numa eficácia à distância, com privilégio imediato e ainda mais assimétrico das formações tecnológicas sobre as humanísticas?

Terão sempre razão as boas almas quando apreciam, mesmo que com demasiada bonomia, o modo como se constroem respostas para a emergência pandémica com o ensino que a técnica permite. São respostas batalhadas, que surgem de uma realidade de trabalho que invade o tempo de lazer e o espaço doméstico. Isso nem sequer é novidade no quotidiano de qualquer docente, mas aprofunda-se com a vulgarização dos vínculos precários que, no caso do Ensino Superior público, o PREVPAP esteve longe de resolver.

O que as boas almas não dizem, o que tardam em reconhecer, é que o novo quotidiano de um/a docente em tempo de pandemia é um remedeio que tende a ser remédio. É por isso que o futuro próximo, ainda oculto sob o embrulho da expressão “novo normal”, ameaça a qualidade do Ensino Superior público a um nível provavelmente inédito. Na mais do que certa perpetuação das contingências sanitárias e do prolongamento do teletrabalho, é necessário precaver contratos, postos de trabalho, números de estudantes por turma e por tipologia de aulas lecionadas. Esta discussão está perigosamente adiada e deve começar já.