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ANALISAR E MUDAR

A social-democracia, da qual fazem parte os Partidos Socialistas e Social-Democratas da Europa, vem somando desaires eleitorais graves em vários países, como em Itália,  Grécia, Holanda  e mais recentemente em França, onde passou de uma posição de chefia do governo a uma situação de representação muito modesta.

Num claro contraste com esta situação, o Partido Trabalhista do Reino Unido alcançou um resultado muito interessante, ao voltar ao tradicional programa social-democrata. De notar que o dirigente Trabalhista, Jeremy Corbyn, recebeu um apoio muito considerável do sector mais jovem do eleitorado.

Rompeu, assim, com a prática comum a uma grande parte dos partidos social-democratas, a chamada terceira-via, preconizada por Tony Blair no Reino Unido, numa viragem à direita com aproximação ao neoliberalismo, o que ditou o declínio dos partidos que seguiram essa via. 

A teoria defendida pela terceira via visava um abandono das posições de apoio aos trabalhadores, um afastamento dos sindicatos e a aproximação ao posicionamento conservador de políticas de austeridade, que os grandes interesses financeiros sempre procuram impor.

Os militantes socialistas ou social-democratas, que ainda se consideram de esquerda não aceitaram bem a deriva das direcções dos seus partidos e foram-se afastando e dispersando.

Os que foram permaneceram nesses partidos, sem conseguirem resistir à falta de uma clara definição político-ideológica, foram-se deixando enredar por interesses e compadrios, em lutas por lugares ou por benesses, arrastando o mais completo desgaste nas relações de camaradagem.

As divisões, dissidências e rompimentos têm contribuído para enfraquecer estes partidos e para desagregar o campo da esquerda política, dando um forte impulso à abstenção.

No nosso país o Partido Socialista não ficou incólume a esta deriva da direita dos interesses e da corrupção e por isso, ainda hoje, assistimos ao posicionamento público de alguns dos seus dirigentes que em pouco difere das posições da direita, com quem sonham em aliar-se.

Após as eleições legislativas de 2015, a direcção do Partido Socialista acordou o apoio da esquerda parlamentar para poder formar governo. Aceitou, assim, tacitamente, alterar as políticas que anteriormente levara à prática, com o governo Sócrates.  

Após a tentativa de destruição do Estado Social agravada, durante o mandato dos governos PSD/CDS, com o cortejo de empobrecimento geral do país, de desvalorização do factor trabalho e de uma completa submissão aos ditames dos interesses financeiros, o novo governo obrigou a uma política social de sinal contrário, preocupada com a defesa do Estado Social, com a valorização do trabalho e dos trabalhadores, privilegiando mais os interesses dos portugueses face às ordens da União Europeia.

É isso que as pessoas desejam: mais equidade, diminuição do enorme fosso entre ricos e pobres, criação de emprego com direitos, segurança, isto é, mais justiça social.

É isto que se espera de um governo que se proponha merecer a confiança dos eleitores.

Ora ao longo do tempo o que tem acontecido é que a falta de orientação estratégica tem levado ao aparecimento de inúmeros dissidentes, de todos os partidos, nomeadamente do Partido Socialista, que ao não verem as suas pretensões eleitorais concretizadas resolvem apresentar-se como “independentes”, contribuindo assim para confundir o eleitorado, diabolizar os partidos  e afastar ainda mais os cidadãos da participação política.

Também sabemos bem que sempre que o PS se encostou à direita nunca melhorou as condições de vida dos portugueses.

Mesmo o actual governo de António Costa, numa tentativa de contentar gregos e troianos tem vindo a apresentar várias nomeações para cargos de responsabilidade do Estado que recuperam velhas práticas perniciosas, que em nada prestigiam a democracia.

Trata-se da manutenção duma certa forma da velha política dos interesses que tão maus resultados tem dado ao país.

São questões como estas que têm de ser alteradas para poder permitir a mobilização de cidadãos na defesa de uma democracia participada e viva.

Já chega de baixa política e de politiquice reles, valorizemos a política como algo nobre e superior ao serviço dos cidadãos e não servindo-se deles.

25.07.2017